segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A vida jogada fora

A vida é uma aventura
Um mar cheio de surpresas
Por tudo se faz loucura
de nada se tem certeza
Viver é fazer um samba
é beber mais um gole
é cantar pra ela


Sempre volta pela janela...                         

Às vezes o tempo é curto
E tem tanta coisa pra se viver
Lição de sabedoria
É ter paciência para aprender
Viver é fazer história
É deixar a lembrança gravada nela

Que a vida jogada fora
Sempre volta pela janela...

(Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

sábado, 29 de outubro de 2011

Que as Crianças Cantem Livres

O tempo passa e atravessa as avenidas
E o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé
E o vento forte quebra as telhas e vidraças
E o livro sábio deixa em branco o que não é


Pode não ser essa mulher o que te falta
Pode não ser esse calor o que faz mal
Pode não ser essa gravata o que sufoca
Ou essa falta de dinheiro que é fatal

Vê como um fogo brando funde um ferro duro
Vê como o asfalto é teu jardim se você crê
Que há sol nascente avermelhando o céu escuro
Chamando os homens pro seu tempo de viver

E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Não tenho medo da morte

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar
a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?
não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte e depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou
então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Batman e a Filosofia"

"A escolha por ter uma vida autêntica traz algumas noites sombrias; porém esse é o preço que devemos pagar para ter uma vida sem ilusão. A aceitação desse fato por parte de Batman sustenta o heroísmo dele. Ele conta com sua própria vontade, e não com um poder sobre-humano para ter uma consciência autêntica.
Por conseguinte, o propósito da capa e do capuz não é esconder quem ele é. A fantasia é um atestado das escolhas que fez e do homem que se tornou. Embora não possamos literalmente imitar Batman e os riscos que ele corre - as batalhas internas dele não são de modo algum estranhas à maioria de nos. Batman é uma pessoa que luta para afirmar o peso de suas escolhas e ter uma existência autêntica.
Em um mundo no qual o conformismo alienado é excessivo, a ignorância é a ordem do dia e o medo é nosso maior mestre, o chamado de Batman á consciência é um exemplo de como a vontade de confrontar o significado de nossa existência também pode ser o caminho para a libertação pessoal."

(Jason J. Howard - "Batman e a Filosofia - O Cavaleiro das Trevas da Alma" - Capítulo 15)


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quarta-feira, 8 de junho de 2011

"Blefe"




Ninguém conhece a alma humana melhor do que um jogador de pôquer. A sua e a do próximo.



Numa mesa de pôquer o homem chega ao pior e ao melhor de si mesmo, e vai da euforia ao ódio numa rodada. Mas sempre como se nada estivesse acontecendo. Os americanos falam do poker face, a cara de quem consegue apostar tendo um Royal Straight Flush ou nada na mão com a mesma impassividade, embora a lava esteja turbilhonando lá dentro. Porque sabe que está rodeado de fingidos, o jogador de pôquer deve tentar distinguir quem tem jogo de quem não tem e está blefando por um tremor na pálpebra, por um tique na orelha. Ou ultrapassando a fachada e mergulhando na alma do outro. Não se trata de adivinhar seu caráter. Não é uma questão de caráter. O blefe é um lance tão legítimo quanto qualquer outro no pôquer. Os puros são até melhores blefadores, pois só quem não tem culpa pode sustentar um poker face perfeito sob o escrutínio hostil da mesa. Há quem diga que ganhar com um blefe supera ganhar com boas cartas e que é no blefe que o pôquer deixa de ser um jogo de azar, e, portanto de acaso, e se torna um jogo de talento.



Já fora do pôquer o blefe perde sua respeitabilidade. É apenas sinônimo de engodo, geralmente aplicado a pessoas que não eram o que pareciam ou fingiam ser. A história dos presidentes do Brasil desde Jânio tem sido uma sucessão de blefes. Jango também foi um blefe, na medida em que aparentava ter um poder que não tinha. O golpe de 64 foi um blefe para quem acreditou nele. Um blefe involuntário. Sarney não foi um blefe completo porque ninguém esperava que ele fosse muito diferente. Collor foi um blefe deliberado que manteve a versão política do poker face, que é uma cara-de-pau sustentada mesmo sob a ameaça do ridículo.



E chegamos á social-democracia brasileira no poder, que pode até estar agradando a muita gente, mas é outro blefe em relação às expectativas que criou e ao que podia ter sido. Ou talvez esse blefe tenha uma história antiga e a gente é que não tinha notado.


(Luis Fernando Veríssimo - "As mentiras que os homens contam" - Página 35/36)

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